24 de maio de 2017

Minha mãe.


Minha mãe me deixa louca.

Sinto uma ponta de culpa ao admitir isso, mas é a verdade. Ela me trata como se eu estivesse orbitando em torno dela. Chegou ao ponto de eu não atender algumas das suas ligações, justamente por saber que é para pedir algo. E eu sempre, sempre mesmo, fiz de tudo por ela. Em todos esses anos posso garantir que fui mais mãe dela do que ela de mim. 

Quando ela se separou do meu pai, ela se tornou uma adolescente, mas poxa, eu era adolescente. Estava numa fase delicada, me destruindo, acabando comigo mesma, mas tendo de reunir forças para cuidar dela, bêbada, caída, para que não vomitasse no seu próprio vômito. Hoje eu sei que ela aproveitou tudo o que um casamento precoce lhe roubou. No começo eu achei legal. Sua mãe te acompanhando nas festas, comentando sobre os rapazes jovens. Afinal, ela era jovem. Recém tinha passado dos trinta e eu dos quinze. Estávamos perdidas, as duas. Eu fui para a comida, para as dietas loucas e ela para as bebidas, o cigarro e trabalhos exaustivos. 

Precisei aceitar que às vezes as mães também querem fugir, sumir do mapa e que a relação mãe-filho não é tão colorida quanto pintam por ai. E o trabalho era sua forma de fugir, de não precisar encarar duas filhas, uma pré-adolescente e a outra nesta fase. Aquele domingo de folga, no qual saíamos para passear o dia inteiro, era nosso único tempo juntas. Era o que ela podia nos dar, o que conseguia. Falar sobre isso é cutucar uma ferida aparentemente sarada há muito tempo, dando uma dor míngua, mas dor de qualquer forma. 

Sim, eu acho que ela não tem o direito de me pedir para fazer coisas. 
Eu pedia para ela me ver nas apresentações da escola, ela não podia. Para ir na reunião de pais? Ela não podia. Com o tempo fui parando de pedir. Eu mesma inventava as desculpas. Nem mostrava os bilhetes. E ela não sentiu falta. O trabalho sempre estava na frente. Em primeiro lugar. Afinal, alguém precisava trabalhar - eu entendo, e a obrigação de nos criar ficou para meu pai. E ele fez o que pode. Contudo, o problema não é trabalhar.

Você quer ter um tempo de qualidade com a sua mãe, entretanto ela te procura apenas quando precisa pagar uma conta, levar para algum lugar, comprar algo, ajudar, consultar um saldo etc. Eu não sou uma funcionária, eu não trabalho para ela. Antes eu tinha uma bicicleta e eu pedalava longas distâncias para vê-la. Passava num mercado antes e comprava o que ela gostava. Esperava ela nas dependências do fundo do seu trabalho. Eu perdi a conta de quantos fundos de estabelecimentos conheci. 

Quantos natais eu e minha irmã ficamos sozinhas esperando ela sair do seu trabalho minutos antes da meia noite? Ela chegava bêbada, cansada e logo ia dormir. E hoje ela diz que eu não quero ir lá, que quase não apareço ou não tenho tempo. Sempre havia um trabalho e/ou um padrasto entre nós. Quando lembro dela em casa, era deitada, no quarto escuro. Estava ausente mesmo estando no cômodo ao lado. Óbvio que eu a amo. Mas estou cansada. Acho que finalmente quero ser tratada como filha.