10 de novembro de 2011

Crônica[2]: Nos abandonamos


-Ah, oi! Quanto tempo! – arrasta a cadeira, colocando seus livros e um chaveiro sobre a mesa. O garçom aparece – Pra mim o de sempre, o que a senhora vai querer? – silêncio, caneta batendo impaciente na comanda, vozes e rostos alheios. – Tudo bem, é... Veja o mesmo para ela.

Um barco iça suas velas, pouco distante dali e, ela fica observando as crianças acenarem aos gritos. Gaivotas sobrevoam a costa, pombas disputam espaços com alguns cachorros muxibentos e gatos espreitam famintos os pescadores. Logo o aroma daquele capuchino a fez voltar.

- Esta tudo bem, antes que a senhora pergunte. – agarra a xícara com as duas mãos, o vapor invade seu rosto, escondendo suas sardas e um punhado de pulseiras se move no seu pulso – Sério. Já não me dou mais ao trabalho de mentir. Aliás, não precisei desde que deixamos de ocupar o mesmo espaço. A senhora cortou o cabelo?

Ela tinha aquela severidade cravada na face, de quem nunca soube o que é sorrir. Se deu conta de que não se lembrava qual havia sido a ultima vez. Não ousou beber, nem apanhar um daqueles biscoitos amanteigados que descansavam na prataria branca a sua frente. Contava cada pérola do colar.

-Como vai o pai? Ele não me ligou mais... E o Ferdinando já assumiu os negócios da família? – um risinho de deboche e um biscoito inteiro na boca – Mirna certamente deve estar a sua réplica, coisa que não funcionou comigo. Quando foi que a senhora percebeu que eu era o seu projeto falho? Eu nunca me encaixei no seu mundo perfeito, não é? – mais alguns biscoitos e o silêncio constrangedor dela com aqueles olhos verdes a queimando – Não ganho muito, mas dá pra comer e até pagar o seu café, incrível, não? Porque veio até aqui, para me dizer que sempre esteve certa, mãe?

Antes de sair, a senhora joga um envelope na mesa. Foge depressa, esticando o braço para atrair um táxi, poderia jurar que a vi usando um lenço próximo do rosto. A jovem abre o envelope, primeiro uma quantia em dinheiro, depois a fotografia desgastada de uma mulher e sua menininha. Com inscrito: “Eu e você” no verso.

10 comentários:

  1. Oi querida! Obrigada pela visita e gentil comentário.

    Grande beijo e abraços carinhosos.

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  2. Na verdade ninguém parece que desistiu...

    Beijo!

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  3. Da´uma nostalgia quando a gente lê esse texto.

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  4. adorei o texto, sabe as vezes falam tanto sobre mim que parece que vc está escrevendo pra mim,aconteceu parecido a pouco tempo

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  5. Eitcha, que coisa boa de ler, que ritmo intenso, prendeu a minha atenção, me fez estar ali na cena, com os detalhes certos, tudo redondinho.

    Parabéns, guria! Manda mais desses!

    =D

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  6. Muito bom mesmo. Do tipo que a gente não quer que acabe. Eu quero mais. E torço pro reencontro dessas duas.

    Beijo!

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  7. Já falei do seu talento para escrever.
    Cada cena tem emoção. Adorei.
    Bom fim de semana!

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  8. Meus olhos estão cheios de água...

    "Ela tinha aquela severidade cravada na face, de quem nunca soube o que é sorrir."

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  9. Olá! Passo aqui para um pequeno desafio, tão bobo que será surpresa se aceitar. Não sei se sabe, mas o velho aprendeu a daguerreotipar! Imagine! Hoje apenas fotografo... enfim. Adoraria representar com um instante de luz um tema sugerido por você. Topa? Que seu tema seja meu olhar fotográfico e que minha foto seja uma postagem sua dedicado a esse simples velho. Que tal? Se topar, por favor, me dê alguns indícios do que SENTES que tentarei reproduzir em imagem esse momento tão efêmero... Abraço e cheiro de café!

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