16 de novembro de 2011

Crônica[3]: O tal encontro casual


Agora eu toco violão e empresto minha voz por alguns trocados. O lugar é acolhedor, romântico e quente como um abraço. Com aromas de chocolate e bebida no ar. Sorrisinhos, mãos dadas, papos de amigos e gente que entra e saí. Às vezes fecho meus olhos, para não contemplar a felicidade alheia e, fico ali naquele banquinho, dedilhando calmamente por horas.
Lembro que sou de carne e osso e não uma máquina, quando um cliente chega tímido e sugere uma canção, sussurrando o nome da amada, apontando para aquela sentada e ajeitando o cabelo em um canto do Café. Sorrio ao receber aquele elogio “esse não é seu lugar, você canta muito bem...”. Então as mentiras de Adriana Calcanhoto ficam flutuando pelo ambiente e, depois voltam para mim, sua dona.

Sinto-me presa ao refrão “Que é pra ver se você volta, que é pra ver se você vem, que é pra ver se você olha, pra mim...”. Eu sei que você não sabia. Fez até menção de soltar a mão dela ao me ver. Uma amiga atrás do balcão, sabendo de nós, quase derrubou a bandeja repleta de licor. Minha voz vacilou, seu sorriso escapou pela porta ainda entreaberta. Nunca fomos apresentadas, por isso ela nem notou.

Continuei. Algumas mechas caindo nos meus olhos, aquelas que você adorava por detrás da orelha. Continuei. Seu olhar me aquecendo por cima dos ombros dela. Continuei.  Lembrando de nós. Daquele futuro que nunca existiu, com a casa pintada de azul e cercadinho branco ou, dos filhos correndo pelo quintal. Continuei? Virando trilha sonora para seus beijos.

Eu era o pássaro na gaiola. Mas as lágrimas desceram livres. Houve sentimento na música, houve emoção. No final algumas palmas, é ninguém sabia o que se passava no meu coração. Depois ruído de vassouras, o gotejar de alguma torneira e sem querer ir embora restou somente: eu, um violão e um copo de bebida vazio na mão.

  

"Um dia desse,num desses encontros casuais, talvez a gente se encontre, talvez a gente encontre explicação..." [Pra ser sincero - Engenheiros do Hawaii] 

5 comentários:

  1. ah flor que linda, gostei da parte que diz que não somos uma maquina pois na verdade não somos mesmo,se cuida

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  2. é triste já passei por isso em viver um amor que não é seu.espero não ter que passar por isso de novo...+ desejo roda felicidade do mundo á vc.
    eu gostaria mt de aprender a tocar violão
    bjs

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  3. E ela não "entregou as mentiras" do moço porque, ainda que houvessem, não caberia fazê-lo.

    Sabe, Dona Fada, um amigo querido me disse, certa vez, que a minha alma deve ser muito velha porque, segundo ele, sou capaz de falar com propriedade sobre coisas que não vivi, com uma propriedade que às vezes o assusta.

    Não sei de onde veio essa minha alma velha, de que tanto me orgulho, mas a tua, com certeza, veio do mesmo lugar. Acho que carregamos o mundo no peito e isso, acredito plenamente, é um grande privilégio.

    ;)

    Parabéns pela escrita visceral.

    Beijo grande, com todo o meu carinho.

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