25 de maio de 2012

Nunca mais escrevi poesia



Reli aqueles diários, quantos eram mesmo? Acho que três ou quatro bem escondidos e empoeirados dentro daquela caixa de livros que decidi organizar para passar o tempo. Já que teria duas horas livres até a minha mãe voltar da igreja e a irmãzinha dançava hipnotizada em frente à televisão.

O primeiro deles eu ganhei aos onze anos. Idade na qual eu ouvi pela primeira vez a palavra depressão, escutava-a ser pronunciada baixo, quase sussurrada como se fosse um segredo ou coisa somente de adulto. Não pedi explicação, não foi preciso, era só chegar em casa após brincar com os amigos que a encontrava lá largada naquele colchão, mesmo em pleno sol, o quarto era só escuridão. Figurinhas de chiclete, a caligrafia horrível, reclamação de uma festa com poucos brigadeiros e o irmão da minha melhor amiga, compunham as poucas páginas daquele caderninho.

 A partir de uma agenda improvisei o segundo, minha versão das coisas aos catorze anos era bem objetiva, poucos detalhes do cotidiano. Por exemplo, no dia 29 de março de 2003 escrevi assim: Já faz um ano que uso óculos. Descrevia com frequência a rotina escolar até ir morar com meus avós (os mesmos com quais eu moro atualmente) e passar a relatar sobre dificuldades financeiras familiares e das muitas saídas alcoólicas das minhas primas, muitas que acompanhei sem nunca beber.

Daí até uns dezesseis anos foi o meu período romancista, sofria de amor impossível e escrevia muitas poesias, certamente Platão se orgulharia. Então meus pais se separaram, o filme fotográfico do meu aniversário de quinze anos queimou, destruindo as únicas fotos com toda a família. Inicio-se um grande vácuo, que nem a escrita – minha paixão desde os dez anos – preencheria, aliás, não conseguiria mais escrever aquelas historias fictícias, não poderia mais encher a boca para dizer aos tios que escritora era o que eu queria mais ser na vida. A realidade caiu sobre mim como um balde d’ água fria.

 O transtorno alimentar apareceu gentilmente em 2007, achei que fosse exatamente o que precisava, então lhe ergui um altar, dia e noite pensando em comida, cultuando as modelos esqueléticas das passarelas, aprendendo nos blogs jeitos de mentir que eu comia e seguindo as mais loucas dietas. Hoje sei que usei isso como a minha fuga, para negligenciar a dor que os demais problemas surtiam. 

6 comentários:

  1. Diários antigos e nossas conclusões...

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  2. pior de tudo e se entregar a comida ... me odeio por isso ...

    beijos

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  3. Nem consigo imaginar relendo o que eu escrevia nos meus 17 e 18 anos... Escrever faz bem.. Parece que ajuda a enfrentar as coisas, mas tem coisas que é bom só seres escritas porque lê-las dói demais :/

    Força.

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  4. adorei saber a sua história na verdade tenho diarios aki n leio de medo, olha eu sei que a ta é uma funga pra todas, a gente tenta viver por algo no nosso caso pela magreza se cuida linda, te adoro

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  5. Algumas escolhas trazem muitas consequências. Porém, é difícil mensurar o que seguir diante dos acontecimentos da vida, que por si só já nos trazem consequências danosas. Uma escolha a partir daí é sempre um risco. O equilíbrio se torna complicado.

    Beijo!

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  6. Doces ou amargas lembrancas só vc pode concluir... As minhas queimei a tempos... Sofria ao ver que não realize meus sonhos... mas feliz ao ver que muita coisa melhorou... Nunca tive o dom das palavras mas era com poder dividir em pequenas linhas o que me passava naquele momento... Recordar e viver... Super beijo ótima semana..

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