29 de junho de 2012

O bagaço da distância


Mal bati os olhos na estante e, cadê meus livros daqui, pai? Lembrei-me de quando pedi ao marceneiro para acoplar a madeira envernizada bem ali, imaginando a exposição dos meus títulos favoritos, ora organizados por tamanho, ora por ordem alfabética. Era uma visita e eu... Bom eu não queria discutir, apesar do tom da minha voz ter se tornado tão semelhante ao de tantas brigas antigas. Os livros estão numa caixa lá no fundo, respondeu inclinando um pouco de lado a cabeça cheia de fios brancos que, segredaram o abandono da tintura. Falando isso, sentou-se no tapete e continuou se distraindo com aquele mesmo aparelho velho de som , que já foi aberto umas mil vezes, espalhando fios coloridos pelo chão.

Tudo parece estar do mesmo jeito, na verdade eu sou a estranha ali, em pé, fingindo uma curiosidade repentina enquanto ele alcança uma chave de fenda próximo da sua perna e em silêncio a gira sobre um parafuso. A proposta de presente para o dia dos pais (vai que não o vejo até lá) fica subindo e descendo na garganta, como o refluxo do estômago que deixa um gosto ruim. Ele foi o primeiro homem que me decepcionou na vida.  Bem, ele não tinha obrigação de acertar, ninguém têm. Digamos que, já começou meio errado. Com o típico caso do pai da moça que obriga o rapaz a casar.

Descasco uma laranja, despreocupadamente enquanto escrevo isso, daqui a pouco não vai doer mais, então terei me conformado. Percebi que naquela manhã eu só queria uma companhia no ato de sentir esse vazio, há pessoas que preferem a dor sozinha, mas hão de concordar comigo que ela dói bem mais assim. Procurei algum exemplo na família, um caso semelhante ao meu. Minha mãe estava indo embora no outro dia. E meu pai não precisa sair da cidade para que a distância entre nós se faça do tamanho de muitas milhas.  

6 comentários:

  1. Quando eu voltei para Santa Catarina visitar meus pais, a estante de livros também não estava mais lá...

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  2. Oi querida, como a dor, a magoa se tornam nossas companheiras e acabamos achando normal, muitas vezes prefiro ficar calada do que colocar meu ponto de vista a quem não quer me ouvir ou simplesmente finge que esta tudo bem...fique bem, bjs.

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  3. O triste é quando a distância aumenta dia após dia. Isto dói. É importante sanar, mas como?

    Fica bem!
    Beijo!

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  4. :[

    Que sua dor... seja sanada logo!
    Ou pelo menos seja aplacada!

    Abraços minha linda menina!

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  5. dói mais a distancia de perto do que de longe...


    valeu a visita.

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  6. É complicado dizer qualquer coisa num post desse, mas eu me arrisco a dizer que você tente. Não desista dele como ele desistiu de você quando te magoou primeiro.
    Não pague indiferença com indiferença porque no final ninguém sai ganhando. A começar por esse dia dos pais. Se force a sair e comprar um presente bacana. Mostre que você se importa. Ninguém é tão cruel a ponto de não se importar ao receber carinho.

    Espero que a relação de vocês melhore. Beijos

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