14 de agosto de 2012

Não foi sempre assim



O meu avô leva mais tempo agora para se levantar da cadeira de fio e faz isso com uma das mãos nas costas, como se assim pudesse amenizar a dor. Posso jurar que ouço um gemido sofrido da sua boca, mas segundo o orgulho dele isso não passará de coisa da minha cabeça. Ele está lá isolado, reclamando algo sobre a carne assada estar dura demais para a sua dentadura, em pleno dia dos pais. Ter sugerido aquele almoço amenizou um pouco o peso na consciência de não ter feito nada no ano anterior, nem ao menos visitado o meu pai.

A churrasqueira ainda erguia uma fraca fumaça cinza quando meu pai decide ir embora, não sem antes alardear a todos para verem uma cena histórica. Curiosa, fecho o livro, levanto do sofá e paro na porta esperando. Ele toca o ombro do meu avô  de modo vacilante e, este desorientado pela visão debilitada gira na direção contrária adiando o momento do seu filho lhe dar um abraço. E esse abraço foi uma brecha no “muro de Berlim” que por tantos anos separa os dois. Temo um futuro semelhante, mas não faço nada para evitar que o nosso contato vá além de datas comemorativas.

A partir do momento em que supus não precisar mais do meu pai e consequentemente de mais ninguém, comecei a erguer desertos ao redor e todas as dores cresceram como cactos dentro de mim, mas não deixei perceberem o quanto doía. Achei que pudesse suportar tudo sozinha e cresci assim negligenciando ajuda quando mais queria. Porém, no domingo à noite percebi que todos esses anos eu me iludi. Aconteceu quando meu namorado foi noticiar o seu pai de um acontecimento pessoal triste. Se as circunstâncias o obrigaram ou não a contar, pouco importa, o fato é que eu fui espectadora de um apoio familiar do qual me vi sentindo falta. 

 O nó de anos de silêncio preso na minha garganta apertou tanto... Quase me sufocou. No meu caso, sofrer não é permitido. Estou pagando um preço caro por nem sequer ter tentado: não posso compartilhar disso com ninguém. Ninguém entenderia os meus motivos, na verdade nem eu mesma os sei. Ouça estes meus olhos frios, eles dizem que estou cansada de perder, exausta de me sentar nesta recepção todos os dias e achar este trabalho irrelevante.  Eles contam que a garganta fica ardendo de engolir palavras duras, estas que anulam todas as minhas conquistas anteriores.   

5 comentários:

  1. Oi querida,como e difícil a convivência em família tenho problemas assim mas com minha mãe, não consigo me abrir com ela dar um abraço, e tenho medo que um dia não possa mais...Não sei os motivos que te separam, mas espero que um dia tanto vc quanto eu tenhamos superado essa barreira hoje não fazemos nada pra mudar, mas um dia podemos vir a nos arrepender, mas eu sei o quanto e difícil, quem sabe um dia...Bjs

    ResponderExcluir
  2. Minha mãe teve esse muro com os pais dela. Eu não tive, nem com ela, nem com os pais dela. Só faltou-me um pai, mas não tenho do que reclamar.

    Acho que tu ainda tem tempo de voltar atrás e firmar laços ao invés de criar muros ao teu redor de ti, porque você sabe... nenhum muro nos guarda de nós mesmas.

    Abraços.

    ResponderExcluir
  3. Já dei o primeiro passo para derrubar esse muro, mais ele não foi completamente destruído. Vou derrubando a cada dia tijolo por tijolo. Não desisto pois sei que a vida é breve e amanhã posso estar arrependida de não ter dado os primeiros passos. Que o Senhor nos fortaleça!

    Bjs

    ResponderExcluir
  4. Viver nunca nos traz certezas. Os caminhos, as escolhas feitas podem nos surpreender, ou não. Não se crucifique por viver, por ter feito o que tinha nas mãos, ao alcance da tua capacidade como ser humano. todos estamos sujeitos à isso. Respeito você. E isto me permite te entender um pouco. Às vezes entender não é tão importante, porque o entendimento às vezes é pouco demais difícil. Mas respeitar sim. E isto somos capazes. Costumo dizer que quando não entendimento, é preciso ter respeito. E ao se ter respeito oferecemos a compreensão provinda da humildade.

    Te cuida!
    Beijo!

    ResponderExcluir