6 de novembro de 2012

Da minha caixa-preta



Enquanto enchiam novamente o caminhão com as mudanças deles, não consegui evitar de romancear que aquela era uma segunda despedida. Realmente eu não sei quantos dias foram ao certo ou quantas vezes, mesmo estando sob o mesmo teto, eu o vi. De inicio fui relutante com a ideia de encontrá-lo pelo corredor, temia por vivenciar as situações antigas, que um pedaço do passado pudesse voltar assim sem autorização para minha vida.

Poderia ter sido indiferença, alivio,... Mas escolheu ser algo indefinível como uma goteira pingando no meio do nada, você a vê se formar para cair, aguarda o som e nada. Optou por ser esse vazio, vazio esse que dá uma sensação de ter perdido algo que nunca possuiu. Mais um fio de sustentação no nosso relacionamento se rompeu naquele momento. Minha garganta novamente estava entupida de palavras não faladas.

Meu pai morando temporariamente na casa da minha avó, com sua esposa e enteada, me trazia uma vaga sensação de pertencer a uma família. E é dessa ideia que eu gostava. A cena dele apoiando o espelho numa das pernas, sentado na beirada da cama, enquanto penteava o cabelo antes do trabalho ainda é a mesma de quando eu era criança. Fantasiava que a seguir minha mãe nos chamaria para almoçar e, eu e a minha irmã sairíamos do quarto disputando quem chega primeiro à cozinha.

Mas as lembranças eram nuvens de fumaça, logo se dissipavam, não permaneciam. Descortinando diante de mim novamente a realidade. Com os pais “ausentes”, agarro-me ao carinho dos meus avós – e da minha irmã, à maneira dela – graças a eles, ao meu namorado e a família dele, ainda retenho humanidade. Afinal, se deixar você acaba acreditando que não precisa de ninguém e vai vivendo em sua redoma de vidro, fingindo não se importar. 

12 comentários:

  1. Vivências que nunca se esquecem e são sempre dolorosas quando se abre a caixinha preta.
    Adorei o teu blogue também.

    beijinhos

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  2. Olá! Nossa, que lindo isso aqui! O texto, o blog... Lindo lindo!

    Passando pra agradecer sua visitinha lá no AT. Abs!

    http://dreycka.blogspot.com

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  3. Lembranças sejam boas ou não nunca pedem licença para retornar. Chegam com força e logo se vão deixando um gosto amargo.

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  4. eei
    uaw, adorei o blog
    segue?
    beeijos

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  5. não sei se é autobiográfico (me pareceu) mas tá bonito pra caramba. só acho que não vale a pena acreditar que não precisamos dos outros - isso nos torna quem somos, a essência da boa vontade humana está em precisar dos outros. as vezes dói perceber, mas talvez seja o primeiro passo para a cura das mágoas.

    ps: matilda como amooo!!!

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  6. Oi querida, lindo texto como sempre, gostaria eu de perder minha chave da caixinha preta e nunca mais vela pura ilusão menos a gente quer recordar, mais forte as lembraças vem como vc mesma diz sem autorização, mas se consegue mesmo em imaginação tirar algo bom ainda a esperança de uma vida melhor.Bjss

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  7. Passei, vi. li e gostei muito do seu blog. Parabéns pelo conteúdo do seu blog... Aguardo a sua visita em meu blog e se possível siga-o e vote em meu blog para o PRÊMIO TOP BLOG 2012. http://inkdesignerstampas.blogspot.com

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  8. Nossa me identifiquei com o texto, não com os mesmos detalhes, mas com a historia em si... linda bjs estou lhe seguindo =)

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  9. Espero que você consiga ser feliz do jeito que gosta agora. Ah, e seu pai mesmo sendo ausente ele te apoiou e te levou junto a ele. É muito difícil, pelo menos na minha "sociedade sergipense" que um pai leve a filha com ele pra sua "casa", geralmente, deixam na rua da amargura. Afinal, já foram casadas e não aceitam-nas novamente :( Dê um crédito a ele, sim você possue família. São nos piores momentos da vida que vemos realmente quem está do nosso lado, mesmo que indiretamente!

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  10. Eu não sei como foram as vezes anteriores, mas eu sei que algo doloroso que acontece mais de uma vez é doloroso sempre. Não existe "antibiótico" para essas coisas. Existe apenas a força que nós mesmas criamos. E essa força vem de várias formas: uma pessoa, um afago num cachorro ou numa caneca de chocolate quente com marshmallow.
    Fica bem~

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  11. Se você tem outros apoios, agarre-se como puder neles. Ficar sozinha é uma das piores coisas do mundo.

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  12. Querida, não consigo imaginar como você se sente... Essa falta de pais, de família... Mas sei que você é forte, passa por cima de tudo isso ;)

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