3 de outubro de 2013

Um brinde



Um brinde ao descaso. Agora tarde demais para ser cobrado. 
Um brinde a falta que alguém te fazia e agora não faz. Encha a boca e diga que você amadureceu, que hoje em dia está na moda o desapego, que o afeto é brega, que chique mesmo é ter uma carreira de sucesso ocultando uma droga de vida, mas, quem escuta a verdade é o teu travesseiro. 

Um brinde à abstinência dos sorrisos que já não damos mais, que já não são como os de "antigamente", que eram puros, verdadeiros e caíram das nossas bocas juntamente com os dentes de leite, quando começamos a forjar os sorrisos que ainda temos de monte, dos quais nunca nos desfazemos.

Um brinde ao consumismo, esse novo remédio antidepressivo. E a todos os sentimentos que o dinheiro possa comprar, não são poucos os que se vendem e não são poucos os que se deixam comprar. Aos teus sonhos, aqueles que estão expostos numa prateleira de uma loja qualquer, esperando uma promoção para ser de qualquer um. E aos artigos de luxo, ou não, prontos para amenizarem a sua culpa, prontos para te trazer uma felicidade bem curtinha e superficial.

Um brinde à distância, ilusoriamente superada pelas redes sociais. Aos "bom dia", "boa tarde" etc, economizados, enviados aos grupos sem fazer sentido para ninguém. Aos abraços de aniversário - antes, quem sabe, uma chance única de algum contato - agora em forma de figurinhas virtuais. As ausências justificadas por um status postado do celular, enquanto você envelhece, as pessoas envelhecem sem saberem o que  esperar...

Um brinde às cartas que não chegam mais, sem que tenham uma data de vencimento e as que não enviamos mais, por falta de argumentos. Aos amores que você julgou ser como os dos filmes e revelaram um ledo engano. Aos olhares que eram lares e hoje são um borrado estranho. Aos velhos tempos que não voltam mais. 

8 comentários:

  1. Como levar um suave tapa na cara...

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  2. Perfeitamente!

    Como disse a Marcy, um tapa suave na cara, de muitas de nós, que achamos que somos da "era moderna" que estamos a frente de um mundo de m*erda! Que nos fazer se cada dia solitária, prisioneira de nós!
    Seu texto expressa tudo que eu sinto e um pouco mais!
    Que saudades de ti!
    Abraços!

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  3. Se há de haver um brinde doce e sincero aqui, ele deve ser ao seu texto, tão primoroso e triste.
    Senti muita falta de habitar seu espaço. Gosto realmente do que você escreve, porque há muito mais do que qualidade em suas linhas, existe uma verdade real nelas. Você é meiga e elegante ao falar até sobre coisas obscuras da vida. Você é meu exemplo, mesmo que não nos conheçamos pessoalmente. Mas, e por que precisaríamos nos conhecer pessoalmente quando suas palavras já a denunciam e revelam seu caráter tão bem?
    Continue escrevendo, querida. E continuemos a viver, esperando que um dia não precisemos mais erguer taças a situações tão penosas como as que você descreveu.

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  4. Tudo isso é tão triste.
    Acredito que isso tem a ver com o que eu acabei de colocar no meu blog [...] A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado [...]

    Após ler seu post, parei pra pensar!

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  5. Tim-tim!

    Como sempre, ótimo texto. Vejo que tu não perdeu o jeito com as palavras, pelo contrário.

    ;)

    Estou de volta ao blog, flor.

    Um beijo.

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  6. "Tapa na cara da sociedade." Esse texto me prendeu e me fez pensar a cada palavra, reviver situações, ideais e...você escreve muito bem! Flui. Parabéns.

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  7. Ola, adorei a forma como escreve, com certeza passarei mais vezes em seu blog.
    Que esses brindes nos tornem mais humanos.
    Beijos

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