4 de agosto de 2014

Contr-agosto


A sua dor é tão densa que eu poderia cortá-la com uma tesoura sem pontas, daquelas dadas para as crianças no jardim de infância. Queria tanto que ela fosse embora, essa tristeza intrusa! Porém, a raiz dela é mais funda do que eu possa imaginar, ainda que eu cavuque, não consigo ver o seu inicio. Você me diz não saber o que fazer, infelizmente eu também não sei, somos dois cegos tateando no escuro em buscar de um interruptor.

Os olhos falam, todos eles, por vezes até mais que a boca, no entanto, não são mentirosos. Os seus gritam. É um olhar perdido, de quem está à beira de um abismo sem qualquer outra opção a seguir. Só quem já esteve tão perdida consegue reconhecer outros na mesma situação. Talvez seja por isso que faça o maior sentido em um ex-qualquer-vício ajudar o outro a se recuperar. 

Você tem a certeza de que não precisar passar por isso. Ótimo, ainda bem... Ali, naquele momento, não era sobre mim, nem deveria ser, era o seu mundo rachando embaixo dos seus pés. Então, do nada, o ar ficou difícil de respirar. Eu tentava respeitar a sua dor. Mas, não sei bem o porquê,  um pedaço de mim trincou. Não os culpo mais, eles - meus pais, também eram crianças quando tudo começou. Acho que isso deve ser crescer. Quando você para de responsabilizá-los pelas lacunas que eles não conseguiram preencher. 

Apoio. Era nisso que você falava, enquanto a minha mente se ocupava em me sufocar com memórias pesadas. A Fome. A água vinda do vizinho do lado. O

morar                                                                    de 
                                                                                                             favor. favor.favor.favor.favor.
                Por 
                                                 favor, não queria lembrar de mais nada. As velas substituindo as luminárias. Três meses atrasada. A Conta. Fecha essa cortina! Não deixem os outros perceberem. Ela sustentando a casa. Ele não gosta de trabalhar. Com quem você vai ficar quando seus pais se separarem? 

Eu estava sendo egoísta, como costumam ser as pessoas que nunca pedem ajuda. Como as que insistem em recontar sua história, como as sobreviventes que se gabam até a sua morte por isso. As quem insistem em fazer o papel de vítimas para sempre.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário