24 de março de 2015

Rita.




Rita queria se casar num domingo, justo no fim da tarde. Entre o Faustão e o Fantástico, bem no meio entre o tédio dominical e a depressão de uma iminente segunda-feira. Imaginou as pessoas sorrindo, prometeu para si mesma que não iria chorar, mas até quando sorri faz isso, então a promessa se desfez no ar daquele quarto cinza de subúrbio. Em todos os outros dias, Rita é forte e se vira bem sozinha, mas quando o fim de semana vem, a solidão a atinge como num espiral.

Teve o Pablo, aquele garoto certinho, o tímido na mesa do bar, tentando se encaixar na sua turma de amigos, bebericando um, dois goles e disfarçando a careta. Felizmente, os outros estavam bêbados demais para perceber o quão fora de contexto ele se sentia. Rita gostou dele num segundo, uma faísca e nada mais. Você tem de ficar com esse, dizia sua mãe antes de falecer, ao menos morreu achando que a sua filha estaria hoje morando numa casa pintada de azul com cerca branca.

Amassou mais uma bituca no cinzeiro, coisa do Rômulo – o aventureiro. Tem gente que só sabe ensinar coisas destrutivas. Ela queria se encontrar, mas ele a fez se perder ainda mais. Com aquele gosto esquisito para comidas. Adorava misturar bebidas. O cara era o fundo do poço, mas sabia dançar como ninguém. Ele esqueceu alguns CDs junto aos seus livros do Nicholas Sparks antes de partir para um mochilão no Chile e nunca mais voltar.

Seu pai manda postais felizes nos natais. Ele foi o primeiro homem que não deu certo na sua vida, talvez nem tivesse como dar. Mal sabia da sua existência até os 13 anos de idade. A única foto dele está numa página amarelada de um jornal com algo do tipo empresário do mês ou exemplo de sucesso, não lembrava. Rita não gostava que sentissem pena dela, sempre foi uma menina agressiva. Coleciona três expulsões das várias escolas em que estudou. Pois, precisava sempre mudar de lugar e, permaneciam num endereço até a sua mãe arranjar uma nova dívida e fugiam.

Fabrício está apagado no sofá que era da sua avó. O móvel já foi bom e bonito um dia, agora a espuma está aparecendo e a cor nem de longe lembra o azul turquesa. Aquele é o cenário da sua vida antes de ir para o trabalho, antes de se anular por 44 horas semanais numa loja de departamento. Quando acaba o expediente, Rita insiste em ficar mais, sua supervisora disse que não pagará pelas horas extras, no entanto, ficar olhando aquelas pessoas despreocupadas pelos corredores é só o que precisa para esquecer da sua própria vida. 

21 comentários:

  1. Uauu que máximo, que texto lindo !! Você escreve muito bem, parabéns !! Quem dera eu conseguisse escrever assim..
    ps: adorei seu blog, estou seguindo !

    Beijoo Rii Mendes
    www.mendesrosa.com

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  2. Olá Sarah, descrição de vidas tão tradicionais, ficou muito bom! Sabe, as vezes até eu me deparo querendo fugir da realidade, do presente, estranho, não? Acho que todos temos momentos assim.

    Amei a parte onde tu descreve o pai como o primeiro homem na vida dela, e que não deu certo.

    Até mais :D
    xoxo

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    1. Querer fugir é a coisa mais natural do mundo.
      Muito obrigada, beijos

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  3. gosto da sua escrita, gosto muito. eu leria um livro em um dia sem largar, mas as vezes acho que se voce for romantica como eu imagino que é, eu iria ficar frustrada ao final, porque adoro as coisas mais fodidas da humanidade, maldade, acontecimentos punk, pessimismo, bla bla bla. rs

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    1. Me senti lisonjeada,viu? Sou um pouco romântica mesmo. Mas, gosto de impressibilidade, nunca ia escrever algo tão algo com açúcar, não faz meu estilo. Gosto de terror, suspense, ficção e em ultimo, mas não menos importante lugar romances. Beijos

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  4. Eu amei teu blog e o teu jeito de escrever. Li vários posts por que, como sempre, não me contentei com só um. Sabe quando a gente vê uma coisa que acaba inspirando e de certo modo mudando a nossa vida? Foi tipo isso... Vou acompanhar o Fada Sem Asas desde já. De qualquer forma, obrigada.

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    1. Ah, que ótimo! Sei que escrevo muitas coisas tristes, mas é bom saber que algo pode ajudar de alguma forma. Eu que agradeço, fique a vontade. Beijos

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  5. "Ela queria se encontrar, mas ele só fez com que ela se perdesse mais ainda". Quem nunca? Adorei o texto, como sempre, muito sensível e bem escrito. Amo esse cantinho! Um beijo.

    Eu.Nomadiando

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  6. Ual, seu texto foi profundo e triste. Amei!
    beijos.
    http://lugaaraosol.blogspot.com.br/

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  7. gente, você escreve muito, muito, muito bem!
    Adorei o texto, sério, parabéns!

    Beijos,
    rodoviadezenove.blogspot.com.br

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  8. MAS MINHA GENTE! Que leitura fluida, simples, gostosa de ler. A gente vai até o final e não sente. Segue até o último parágrafo pra entender quais as ligações entre ela e os personagens masculinos.

    Me identifiquei muito também. Você até poderia trocar "Rita" pelo meu nome.

    beijo
    beinghellz.blogspot.com

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  9. Adorei o texto!! Essa crônica ficou ótima e muito bem escrita!! Muito gostoso de ler!!

    bjs
    blogtrashrock.blogspot.com

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  10. Muito bom seu texto. Você escreve bem. Gostei.

    Beijos
    www.heyealaysa.com

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  11. Muito bom... To me sentindo exatamente com a Rita... E procurando loucamente uma maneira de não me deixar sucumbir... me acomodar... Tu escreves muito bem... Parabéns!
    Bjs
    Amanda Nery
    Leituraentreamigas.com.br

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  12. Você escreve muito bem. Parabéns pelo texto. bjs

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  13. Um texto simples mas com uma essência incrível. Parabéns!
    Quer conhecer nosso blog também?
    http://www.tresestacoes.com/
    Beijinhos!

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