11 de abril de 2015

A garota que aprendeu a se virar



Naquela tarde tranquila de sábado, eu soube que minha mãe a havia deixado sozinha em casa. Então lembrei de mim, um pouco mais velha que você, mais precisamente no meu primeiro dia de aula. Aquela escola parecia muito maior do que o meu assustador quintal de chão de terra vermelha ( e eu me considerava uma ótima cozinheira, derivando tudo da terra naquelas panelinhas de mentira num fogão de mentira). Eu não sei por quê foi o meu pai quem me "levou", minha mãe deveria estar trabalhando, sim, claro, se eu pudesse defini-la em uma palavra seria trabalho.

Ele me soltou no pátio. Procura a sua sala. Depois subiu na sua moto e partiu rumo ao desconhecido e eu fiquei ali no pátio procurando por algum adulto qualquer. Posso dizer que foi a partir deste dia, aos sete anos que eu comecei a me virar sozinha. Bom, pelo menos era isso que eu acreditava estar aprendendo enquanto ficava em casa "cuidando" da minha irmã apenas três anos mais nova, quando chorei dentro do ônibus por ter esquecido de passar a catraca junto com ela, ou, quando levei um tapa por não ter evitado de um cachorro mordê-la. Aos nove já tinha queimado muito arroz antes de fazer certo, morria de medo de usar a panela de pressão e não sabia direito limpar a casa.

Não foram apenas momentos ruins, eles precisavam trabalhar e desde muito cedo aprendi o significado disso, assim como do suicídio - eu o vi com uma corda improvisada com pano no pescoço, no meio do corredor. Eles nunca escondiam as brigas e muito menos poupavam coisas de vidros, tinha me acostumado com  o som de um vidro se quebrando. Eu também não entendia o motivo da minha mãe durante um tempo não querer sair daquele quarto escuro ou levantar da cama, foi meu contato com a depressão.

Só hoje, quase vinte anos depois eu realmente descobri o que nunca mais abandonei desde então: a autossuficiência. Ela já me fez sentir tão forte, acima dos demais, como se ninguém pudesse me atrapalhar, como se eu não precisasse da ajuda de ninguém, tão somente eu me bastaria. Eu me gabava de ser independente e os outros me aplaudiam e me apoiavam me deixando sozinha. A professora deixou bem claro na última aula: pessoas autossuficientes foram negligenciadas quando crianças. 

 Estou redescobrindo as outras pessoas, outras possibilidades de fazer as coisas. Eu só queria poder evitar que lhe acontecesse o mesmo. 


5 comentários:

  1. Forte isso : " pessoas autossuficientes foram negligenciadas quando crianças"

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    1. Sim, quando a professora falou eu fiquei pensando: O que eu faço com essa informação agora? Eu sempre pensei que tivesse sido a educação ideal, sempre pensei que ser autossuficiente era bom. De repente, derrubaram meu conceito sobre isso, difícil.

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  2. Ola Fada sem Asas,
    Realmente, tenho muito tempo aqui neste mundo paralelo. Desistir agora seria desisti de lutar por mim né? Suas palavras fizeram pensar profundamente. Mas o desanimo não me larga.... mesmo assim vou tentar continuar.... com muito luta. Obrigada pela sua palavras.

    p.s. Desculpas não li seu texto. Somente respondendo seu comentário no meu blogger. Já que somos as ultimas das mais antigas que ainda estamos por aqui. Abraços.

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  3. Acabei de ler seu post. Como é forte suas palavras, como sua dor é tão grande, pelo menos é o que sinto. E as palavras da professora foram muito fortes.... como você respondeu a Noiva, os conceitos que você e até eu tenho vieram por água a baixo e fazem sentido nas palavras da professora.

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  4. To com poucas palavras pra definir, mas esse texto, sabe? Tem tanta gente autossuficiente no mundo e isso dói.
    Ler teu blog mexe muito com a gente, você sabe como fazer isso com as palavras.

    http://www.novaperspectiva.com/

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