13 de novembro de 2015

Cama quebrada



Eu queria fugir, ir para bem longe. Não me sinto em casa, estou desconfigurada, perdida e cansada. Não quero mais insistir para que ela seja uma boa mãe. Se ela não quer mais comemorar o seu aniversário, se acha melhor pedir as coisas aos outros que para as filhas, se prefere comemorar o natal com seu namorado e se diz preocupada quando na verdade queria dormir com ele fora todos os dias. Tudo bem, pode ir. Ela quer ser livre (e diz isso para a filha de sete anos) e sempre foi. Mesmo antes de sair de casa já era ausente, uma estranha, uma desconhecida. Hoje eu percebo que certas obrigações cortaram suas asas muito cedo - casou aos dezessete e engravidou de mim aos dezoito. 

O trabalho era a sua fuga, assim como é para mim também. Tenho medo de herdar apenas esse coração cigano, essa contante urgência em se libertar das responsabilidades que nunca quis assumir. Eu a preservei por muito tempo intacta, uma heroína que me deixava sozinha quando bebê para vender artesanato na rua. Desde cedo aprendi que não podia tê-la, ela não era acessível, objeto de luxo de poucos domingos. Sempre ocupada, coisa da qual se orgulhava, enquanto eu me aventurava na cozinha para dar conta de atender uma irmã três anos mais nova. Esse contraste demonizou meu pai. Lembro de sentir raiva dele tranquilo pela casa enquanto ela estava trabalhando. Ele com seu vídeo game e as fracassadas tentativas de ter um salário, era o vilão da história. 

Hoje eu percebo que nunca coube direito aquele papel de mãe presente, eu não a culpo, afinal as coisas começaram forçadas, como não tinham de ser. O mais importante de tudo isso, foi descobrir como as fantasias me protegeram quando criança das verdades doloridas que agora posso suportar. Óbvio que a amo, mas não vejo a hora de mudar da sua casa e voltarmos a sermos visitas apenas como sempre foi. Deixar para trás as palavras ditas, as magoas, feridas e a cama quebrada que tinha de ser usada sem se mover muito, semelhante a nossa relação com ela. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário