23 de junho de 2016

Um sólido castelo




70. Na verdade, 70,200. Esses números no display da balança, não me machucam tanto como antigamente - quando esse blog era basicamente um diário alimentar. Mas ainda machucam e isso significa algo. Não estou inteiramente livre daqueles pensamentos (ou vozes para algumas). Óbvio que hoje já consigo me olhar mais no espelho, até recitar algumas coisas sobre aceitação e amor próprio (obrigada, terapia!). Entretanto, eu construí um castelo - talvez você que está lendo também e, cada pedra desse castelo representa as vezes em que me odiei com força. 

Leva um tempo para desconstruir esses pensamentos. Leva um tempo para derrubar este sólido castelo. Falam de força de vontade, autocontrole, postam fotos com antes e depois. A boa noticia é que dá para aprender a conviver com isso. Não existe uma fórmula mágica, um roteiro, cada um produz o seu. Foi aos quinze que comecei, porém pode ter sido bem antes disso. Foi vendo um blog aqui, outro ali. Foi percebendo que eu não estava sozinha, como me sentia fora dali. Eu poderia ter encontrado outros meios. Mas, no começo a coisa foi dando certo - como sempre dá nos começos. 

No começo eu sentia que precisava fazer isso. Então comprei os laxantes, os chás, as aspirinas, as cafeínas... Enfiei por várias vezes a escova de dentes na garganta. Joguei comida fora. Fingia que comia. Recusava sair com as pessoas. Ao mesmo tempo em que eu afastava a comida, afastava as pessoas, contudo continuava atraída por comer como se isso fosse uma droga. Eu não sabia que estava doente, como tantas garotas não sabem, afinal não é normal fazer dieta? 


Eu definitivamente cansei de fazer dietas. Quando eu fui perceber que no final das contas era só eu contra eu mesma, eu havia desenvolvido um transtorno que vai me acompanhar por toda a vida. Está silenciado como um gigante adormecido que a qualquer descuido pode acordar. Não há cura para isso, mas modos de viver, de conviver e sobreviver. Eu queria poder voltar e falar para a minha versão adolescente que mais de uma década depois aquelas coisas não adiantariam. Porém, não posso fazer isso, resta-me preservar o que serei no futuro. 

Eu não sou minha inimiga, você também não é a sua. Não está certo apenas pensar em comida, o dia todo. Se você quiser permanecer assim, sabe que estará costurando consequências para toda a vida. Você é livre, até para ficar dentro da gaiola, mesmo se ela estiver com a grade aberta. Só quero que meu corpo retome o controle das coisas, ele melhor que ninguém sempre soube quando eu verdadeira precisava comer. Pode ser a enésima chance, já perdi as contas, nunca fui boa mesmo em matemática. 




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