26 de março de 2017

"Lugar seguro"¹


17:40
Coloquei no spotify, umas músicas da Clarice Falcão. A intenção era de que a voz dela e as suas melodias, funcionassem como 'boas-vindas' e deixasse o lugar confortável e calmo. Na noite anterior eu havia dormido tarde, lendo textos e mais textos sobre o assunto, tentando estar bem preparada para o dia seguinte. E eu estava confiante, apesar de ser a primeira experiência com grupo de acadêmicos. A  minha supervisora de estágio, tinha me desejado horas antes, sorte. 

17:50
Cada voz no corredor daquela faculdade, me causava um sobressalto. Fiz os últimos ajustes. O material estava pronto. Faltavam apenas eles, a parte principal e fundamental do projeto. Reli alguns tópicos que considerava importante para aquele encontro. Arrumei o crachá que insistia em ficar retorcido no meu pescoço. 

18:00
Eu não sei muito bem em qual minuto exato, daquela sexta-feira, eu percebi que não apareceria ninguém. Mesmo depois de ligar para cada pessoa para confirmar a presença, de ter ouvido 'obrigada por me lembrar, eu já tinha esquecido'. O ar condicionado e a afinação da Clarice me fizeram companhia naqueles minutos que pareceram horas. Foram duas semanas de divulgação, para três salas com aproximadamente sessenta alunos. Dez inscrições. Zero presença. Fui me dando conta aos poucos de que o meu maior medo de infância e adolescência tinha acontecido comigo, na beira dos trinta anos, no último ano da faculdade de psicologia, numa universidade com dez mil alunos.

Eu nunca lidei bem com a rejeição. Evitava convidar os colegas, mesmo querendo, pelo simples medo de ninguém querer. Festas de aniversário? Tinha pavor de ninguém aparecer. Eu achei que já tinha superado isso. De verdade. Mas, esse episódio, me mostrou que ainda receio a rejeição - mas quem não receia? 

Eu tenho medo de não aparecer ninguém. Na vida mesmo. De não ser um  lugar seguro o suficiente para ninguém querer ficar. De não ser interessante o bastante. Então esse medo, aparentemente pequeno, toma proporções gigantes. Fiquei pensando que é a minha primeira frustração como profissional (ou quase profissional, já que esse é meu último ano). Mas, isso já é papo para outra postagem.


¹ Titulo em referência ao episódio da série Orange is the new black, no qual o personagem Healy convida as detentas para um grupo terapêutico e não aparece ninguém.

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